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(Re)africanização e identidade religiosa no candomblé paulista de origem Bantu

RENATO UBIRAJARA DOS SANTOS BOTÃO

Resumo: O presente artigo é o resultado de uma pesquisa de mestrado sobre a questão da (re)construção (ou resgate) da identidade religiosa dos adeptos do candomblé nação angola-congo. A pesquisa foi realizada em dois terreiros do Estado de São Paulo, cujos pais-de-santo procuram resgatar a identidade afro brasiliera-bantu, tentando implantar em seus terreiros rituais de religiões africanas do norte de Angola, o que chamamos mais comumente de (re)africanização. Nossos resultados apontam para: 1) um novo tipo de relacionamento entre o candomblé angola da Bahia e o de São Paulo; 2) o fato de que a questão da (re)africanização é diferente em cada terreiro.
Palavras chave: religião, candomblé, identidade, bantu.

Abstract:: The present article is the result of a master research about the question of the (re)construction (or rescue) of the religious identity of the adepts of Angola-Congo nation “candomblé”. The research was carried through in two “places of fetichism” on the State of São Paulo, whose afro guiders try to rescue the brasillian-bantu identity, trying to implant in their “places of fetichism” rituals of African religions of the north of Angola, what we call (re)africanization. Our results shows: 1) a new type of relationship beetween Angola candomblé from Bahia and from São Paulo; 2) the fact of the question of (re) “africanization” is different in each “place of fetichism”.
Key-words: religion, “candomblé”, identity, “bantu”.

Introdução

Como em outras religiões o candomblé sofreu, e vem sofrendo, transformações e busca se adaptar à modernidade (ou pós-modernidade), e a(re)africanização (1) é um desses pequenos movimentos que ocorrem no interior desta religião. Nina Rodrigues deu início à etnografia do candomblé e privilegiou, em seus estudos, o modelo jêje-nagô (também conhecido como ketu), rito que lhe parecia mais evoluído que o rito bantu. Para Lopes (1988, p. 01):

Essa discriminação dos Bantos atinge o negro de um modo geral. Porque com toda a certeza a maioria dos africanos trazidos para o Brasil na condição de escravos veio do vasto território abaixo da grande floresta tropical (África Central, Oriental, Austral), que é o habitat dos povos bantófones.

Por conta desse “privilégio” dispensado à nação ketu, a nação angola-congo (e outras nações)  que cultua os jinkisi (2) ainda é pouco estudada. Devido a toda essa trajetória de ostracismo acadêmico, não é de estranhar que a luta e o processo de (re)africanização das religiões afrobrasileiras tenham sido iniciadas por adeptos da nação ketu. O termo (re)africanização, em sua acepção  atual, no Brasil, foi pensado por cientistas sociais  (Brown, 1994; Prandi, 1991; Silva, 1995 e outros),  para designar um conjunto de medidas que se  caracterizam pela intenção de resgatar os mitos, os rituais e outros elementos que vinham e vêm  perdendo o significado no interior do candomblé.

Contudo, mesmo com a disseminação dessa religião em todo o país, a “hegemonia nagô” ou “nagocracia”3 persiste. Por isso, concordamos com Braga (1988, p. 85), quando ele diz que “[…] essa reafricanização deveria ser chamada, com mais propriedade, de nigerianização e em menor escala de beninização […]”. E completa dizendo:

A reafricanização ou pelo menos a tentativa de reafricanização dos cultos afro-brasileiros, pelas razões históricas e até mesmo políticas, foi profundamente prejudicial ao conhecimento de outros povos africanos, tais como os Bantos, que legaram ao Brasil muito da sua concepção de vida, de hábitos e costumes, hoje plasmados na totalidade do ethos brasileiro. A reafricanização pouco serviu aos interesses dos candomblés Angola, Congo e Congoangola, e tantos outros grupos religiosos. Ao contrário, ficaram de alguma forma estigmatizados, quase órfãos de uma matriz à qual pudessem eventualmente recorrer. É como se a cultura religiosa africana se limitasse exclusivamente à religião dos Orixás. Em síntese, a reaproximação com a Áfricatem sido pouco expressiva em relação ao conhecimento dos países de língua portuguesa, ironia da história, os menos estudados e muito pouco visitados por pesquisadores e gente-de-santo.
(BRAGA, 1988, p. 88)

Contudo, desde os anos 1990 que alguns sacerdotes do candomblé angola-congo em São Paulo, resolveram iniciar o resgate de ritos e mitos bantu. A questão com o qual nos defrontamos agora – além da escassez frente aos estudos sobre a tradição e as culturas bantu no Brasil – é o de saber como se dá a (re)africanização no interior dessa nação, fato ainda não pensado pelos estudiosos das religiões afro-brasileiras. Como os angoleiros, nome pelo qual são conhecidos, percebem a (re)africanização, em que aonde (Angola?, Congo?, nos livros?, eventos?) eles vão buscar esses conhecimentos, porque a fazem e até que ponto é possível empreendê-la.

Esse resgate das tradições passa, por exemplo, pela tentativa de reeducar os adeptos do rito angola-congo no sentido de utilizar as línguas bantu que vieram para o Brasil em seus rituais. Outro exemplo de resgate empreendido pelos angoleiros é o das divindades e a reconstrução das canções, das rezas e do sistema oracular desse povo.

Neste artigo procuraremos responder a algumas questões referentes a esse movimento, no que diz respeito à (re)construção da identidade religiosa dos adeptos da nação angola-congo, concentrando nossa discussão nas falas de dois pais-de-santo do Estado de São Paulo: Tata Nkassuté e Tata Katuvanjesi. A escolha dos 3 Emprestamos essa expressão de Prandi (1991, p. 101), que a utiliza para demonstrar a popularidade alcançada pelo candomblé nação ketu – também chamado de nagô – no Brasil, na década de 1970. terreiros não foi aleatória, pois, os dois sacerdotes e suas casas4 se destacam como pioneiros (e servem de modelo) quando o assunto é o resgate dos conhecimentos bantu em São Paulo e, quiçá, no Brasil.

Nossas reflexões finais apontam para o fato de que não existe apenas um tipo de (re)africanização e de que, tem havido uma nova relação entre paulistas e baianos, quando se discute o resgate de mitos e ritos no interior da nação angola-congo. Pois nos parece que os pais-de-santo de São Paulo estariam levando a (re)africanização aos terreiros da Bahia.

Leia o artigo completo em:

http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Aurora/aurora_n3_dossie_01.pdf

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