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Organização Social dos Bantu

*Segredo Manuel, Luanda/Angola

São várias as hipóteses sobre a origem dos povos bantu, algumas versões rezam que saíram das férteis terras do sudeste sariano ou do lago Chade. Outros afirmam que surgiram da região dos grandes lagos, na África Central, ainda outros dizem que vieram da Ásia Menor e posteriormente se foram fixando nas regiões dos grandes lagos, Sudão e a posterior emigrado para o sul. Ao passo que outras teorias dizem que os bantu entraram na África pelo istmo do Suez ou através do mar vermelho e forma se fixando na Abissínia e futuramente migraram para o Sul e sudoeste.

Apesar desta polissemia de conceitos sobre a origem dos bantu, a realidade é que os bantu em contínuo movimento migratório a procura de melhores lugares e condições de sobrevivência se foram sedentarizando e criando uma unidade étnica e cultural baseada nos sistemas de parentescos e grupos de filiação na consanguinidade, criando pequenas aldeias geridas por representantes masculinos de um único grupo.

É sobre este breve preâmbulo que, neste trabalho abordaremos a situação temática da organização social dos bantu, onde no nosso repertório trataremos comunidade bantu e sua hierarquia, a organização clãnica e tribal dos bantu bem a divisão da sociedade em castas e classes, o casamento e a religião tradicional bantu e tantos outros aspectos referentes aos bantu e sua organização social.

A forma de organização da sociedade bantu assenta nos sistemas de parentescos e grupos de filiação baseadas na consanguinidade real ou mística, da qual se exige uma transmissão, de herança e de preferência que as liguem a uma das genealogias biológicas que toda pessoa recebe ou transmite: paterna e/ou materna. As sociedades humanas adoptam um sistema de descendência, cujo ponto de referência se situa num dos progenitores ou em ambos. Este sistema de descendência ou de parentesco é unilateral e, verificando-se dois sistemas: o patrilinear e o matrilinear. Assim, a descendência está ligada a uma só linhagem.

As relações entre pessoas que se consideram aparentadas por consanguinidade real, fictícia ou putativa, são chamadas de “parentesco”.  Pois os bantu primitivos já viviam em pequenas aldeias geridas por representantes masculinos de um único grupo de parentesco; assim, a aldeia era o lar e o centro espiritual de todos os membros da linhagem.

Uma das razões para se instaurar este sistema de linhagens deve ter sido a divisão de trabalho por sexos (assunto que iremos abordar mais adiante).

A comunidade bantu

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Os verdadeiros protagonistas da existência individual e social bantu são os grupos, as comunidades: família, clã, tribo e o reino, império ou a confederação de reinos.

O bantu não pode viver sem família nem clã, pois são dois grupos (primários, por sinal) fundamentais e vitais que dão sentido e consistência à sua vida. A família e o clã são células iniciais, vivificantes e essencialmente comunitárias que definem a cultura do indivíduo bantu. Desta feita, não se pode conceber nem explicar o indivíduo bantu isolado de uma comunidade.

A parentela cria a capa irrenunciável, onde se geram as estruturas sociais e o ambiente onde elas podem subsistir. A sua realidade místico-participante constitutiva estabelece um amplo sistema operativo, fundamento da organização social, ao situar todos os indivíduos dentro de um contexto de relações vitais e mútuas e de comportamentos funcionais e decisivos para a subsistência individual e comunitária.

Assim, a sociedade bantu se vai alargando em círculos concêntricos escalonados, sobrepostos e cada vez mais amplos, apoiando-se nas famílias, como núcleo e células-base. No entanto, ao conjunto de varias famílias se forma um clã. Quando vários clãs sentem uma origem comum, irmanados pela mesma língua, religião, tradições, costumes e espalhados por regiões contiguam, dão origem a tribo. Ao conjunto de várias tribos, com afinidades linguísticas, geográficas ou interesses comuns, podem estruturar um reino. Assim aconteceu com os grandes impérios negros pré-coloniais que se formaram a partir da integração, conquista ou confederação de vários reinos.

Portanto, como já dissemos, a primeira célula social bantu é a família elementar, conjugal, nuclear ou reduzida que compreende pai, mãe e filho. Mas essa não é a verdadeira família bantu.

Por uma razão, as famílias nucleares, unidas e integradas entre si, são o fundamento da solidariedade que dá origem às instituições sócio-políticas as quais não são mais do que o alargamento do núcleo primário. Este, como não se pode bastar a si mesmo, para ser amparado, precisa de se apoiar em grupos mais amplos e organizados.

Esta família não forma um grupo autônomo. Vive imersa e depende do sistema de parentesco, da família alargada e do clã. Contudo, ela é o elemento básico das estruturas sociais e, pelas alianças matrimoniais, dá-se origem às alianças políticas.

A família nuclear é o pilar da sociedade bantu, embora não se possa conceber separada dos círculos mais amplos e fecundos: família alargada, clã e tribo. A família isolada, individualizada, fechada sobre si mesma e autônoma, não existe. O bantu não a concebe, pois os princípios de consanguinidade e de participação vital não a admitem. Além disso, as condições econômicas, climáticas e geográficas impedem o seu isolamento. Por isso é que se disse que a verdadeira família bantu não é a nuclear ou reduzida, mas sim a alargada. Pois o bantu precisa viver em conjunto, participar, sentir-se amparado e acolhido num grupo numeroso e defender-se da magia ou do homem. A participação vital como núcleo e seiva da cultura, impõe-lhe uma vida comunitária e acomodar-se no grupo, participando da mesma corrente vital comunicada pelo sangue.

Somente no matrimonio, na família elementar, o homem e a mulher realizam a mais profunda aspiração da sua existência: prolongar-se, reviver, assegurar a sobrevivência. Da mesma forma satisfazem as esperanças das suas comunidades: crescer, enriquecer-se e assegurar o patrimônio social, político e religioso. «A verdadeira família serere (pode dizer-se também da bantu) é a família maternal, “a família alargada”. Em sentido restrito, a família não é um grupo autônomo; vive na “casa comunal” da família clãnica, no sentido da “gens”. “Esta é a verdadeira família negro-africana»¹.

 O bantu goza de uma comunidade muito ampla que lhe proporciona o deleite de viver sempre em família.

As diversas famílias alargadas formam uma densa rede totalizante que, à base de comunidades e solidariedades, estrutura a sociedade que se compraz em ser essencialmente comunitária. Assim, os membros se tratam como parentes. Chamam “pai” ao tio e “irmão” ao primo. Sem se importarem com a proximidade do parentesco, as designações de “pai” e “irmão” vão-se alargando indefinidamente. Os bantu encontram pais e irmãos nos lugares mais afastados.

A chefia bantu

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Há um aspecto cultural muito relevante relativo aos chefes bantu. Esta hierarquia baseia-se no direito ancestral e numa concepção religiosa e profana simultaneamente e, participa da sacralidade que impregna esta sociedade.

Entre os bantu, o chefe de família faz a ligação direta com os antepassados, presentes na vida comunitária, cuja influência, benéfica ou nefasta, deve ser cuidada. Pela sua proximidade com eles, qualidade, poder e conhecimentos superiores, podem arrancar-lhes favores ou torná-los propícios.

Resolve os conflitos e responsabiliza-se pelo bem-estar familiar. A sua autoridade estende-se ao campo social, político, judicial e religioso. Quando a família cresce e de dilata, os velhos começam a substituí-los em determinadas funções. Aparecem os subchefes de aldeias dependentes, “pater famílias – chefe familiar” que, por sua delegação, cumprem idênticas funções.

 A sua autoridade fica limitada e subordina à dos chefes de organizações sociais e políticas superiores: clã, tribo e reino. Os anciãos e o conselho familiar, embora gozem de grande prestígio, não o suplantam em autoridade, a anão ser em situações extremas e flagrantes. A sua autoridade nunca pode chegar ao despotismo porque a família forma uma comunidade democrática. O conselho familiar, no qual atuam todos os maiores de idade, admite a sua autoridade suprema porque lhe reconhece a superioridade de estirpe, mas controla as suas decisões e opina em assuntos importantes, desta forma as decisões passam por uma consulta prévia à comunidade.

O chefe desempenha uma função fundamental no grupo. Como pessoa mais qualificada e vitalmente mais poderosa, é o guia necessário da comunidade e o guarda das suas tradições e da sua coesão. As motivações religiosas, como veremos, marcam o ritmo e caracterizam a sua mentalidade. Segundo esta concepção sacral, o chefe é um carismático. Constitui, com os notáveis e os anciãos, o grupo mais autorizado, o estrato social mais prestigiado e, como instituição presidida por um “enviado carismático”, que dirige, pensa, solidariza, vigia e procura o bem da comunidade. Quem vê o chefe contata com a vida que arrancou do hipônimo, e contempla este e os outros antepassados. O chefe é o canal de conexão direta com a corrente vital ancestral. Por ele, a comunidade realiza a participação vital na fonte genuína. Por isso, a chefia pertence à linhagem que a comunidade reconhece como autenticidade de sangue e maior antiguidade. Só pode ser chefe quem prove, por sua ascendência, que descende, em linha direta, do fundador do grupo. Só assim se reúne as condições inatas que confirmam a sua predestinação para patriarca, sacerdote, juiz, protetor e condutor da comunidade.

Em resumo, o chefe é o sangue e o espírito dos antepassados, prolongamento e deposito comunicante do dinamismo vital, pessoa sagrada, responsável pela comunidade perante os antepassados, seu delegado por capacidade e eleição e a sua encarnação, pois que, por intermédio dele, vivificam a comunidade a comunidade.

Ilabantu