Mukishi-Hamba-Cikungu
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Mukishi – Hamba Cikungu

Pesquisa do Maganza Lekwandanxi – Erick Munhoz, coordenador de conteúdo e mídias sociais do Ilabantu/Nzo Tumbansi

A mukishi wa Cikungu, a maior das máscaras Tshokwe, pertence ao mwanangana e representa os espíritos malemba, os antepassados familiares. O mwanangana realiza sacrifícios regulares em honra destes espíritos, matando uma cabra (pembe) ou um galo (ndemba kasumbi) com a espada mukwale, um símbolo de poder e dependurando o sacrifício na grande cabana cota, o fórum e a tribuna da comunidade no centro da aldeia.

Como com todas as máscaras utilizadas nos ritos, o rosto da Cikungu é feito de resina. Constata-se que as suas características faciais são maiores do que as de qualquer outra máscara. O chapéu imponente, composto de uma estrutura em forma de leque na frente e por trás, com asas ou discos largos de cada lado (Bastin, 1982: 10), representa a cegonha preta khumbi (Sphenorhynchus abdimi), e o tipo de dentes de serra que normalmente enfeita o chapéu chama-se yenge lya khumbi, que significa “a víbora da cegonha”, uma alusão poética e esotérica a fábulas de animais dos Tshokwe, A faixa de triângulos decorativos vistos em numerosos objectos Tshokwe chama-se yenge, representando a víbora do Gabão (Bitis gabonica), ou mapembe, decorada com desenhos triangulares no dorso da víbora. Os nomes de outros tipos do chapéu de Cikungu são conhecidos por todos os membros da comunidade, que os consideram como uma espécie de ideograma.

No caso das máscaras rituais, os discos laterais representam o sol, o crescente por cima da testa representa a lua, e os pequenos pontos representam as estrelas. Assim, uma espécie de cosmogonia inscreve-se nestes objectos mágicos, carregando-os com as forças do universo.

Foi me dito que o mascarado Cikungu era sempre um mwanangana e vestia a saia comprida até ao chão do chefe, feita de flanela preta bordada no fundo com pano vermelho às riscas. O mascarado levava a espada mukwale ou uma espingarda. Caminhando lenta e solenemente, como u m chefe, anunciava a sua aproximação soprando num tipo de apito pequeno (lundanji) fixado no interior da boca da máscara, que produz longos sons baixos similares ao sibilar do vento. Só podia ser contemplado em segurança por outros grandes chefes ou pessoas importantes. Com a sua chegada à aldeia, os homens e as mulheres fugiam para as suas casas. No caso de um encontro acidental, uma pessoa arriscava-se a ser decapitada pela máscara sacrifical.

O espírito Cikungu é representado por uma máscara, mas nunca em escultura. Porém, como a encarnação dos antepassados do chefe, este espírito venerado e temido é evocado por todas as estatuetas do mwanangana com o característico chapéu cerimonial alado (Bastin, 1982), bem como por bustos esculpidos retratando o chefe, especialmente nos cetros. Todas estas extraordinárias criações Tshokwe exaltam o poder sagrado do mwanangana e a sua influência benéfica sobre os súbditos.

Se o espírito Cikungu fosse abandonado, ou se alguém se esquecesse de homenageá-lo, o adivinho poderia atribuir a doença de um membro da família do chefe à sua ira. Normalmente, essa pessoa poderia ser o seu sobrinho, irmão, filho ou mulher principal. Durante a sessão de adivinhação, demonstrava-se que o Cikungu tinha causado a doença se a figura Samukishí aparecesse entre as marcas no rebordo da cesta conjuntamente com um pedaço de pano vermelho (cihela) entre as marcas acumuladas de barro branco (pemba) e vermelho (mukundu).

Um sacrifício para apaziguar o espírito Cikungu seria então organizado. O mwanangana põe a sua máscara cedo de manhã na cabana mutenji construída no mato e, de seguida, aparece na aldeia segurando a espada e a ”medicina” cisukulo, um ramo com muitas folhas de cisangu (uma pequena planta da savana), cikuku (idem), ou mutundu (uma planta com um fruto vermelho comestível).

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Precedido por dois tocadores de tambor com tambores em forma de ampulheta chamados mukupela, símbolos do chefe (Bastin, 1982), o mascarado dirige-se à cabana cota, onde os anciões da aldeia o esperam. O mascarado Cikungu mata uma cabra com um golpe no pescoço, suga o sangue e entrega o ramo ao ancião mais próximo dele, em seguida, regressa à cabana mutenji. As folhas do cisukuo foram dadas à esposa do doente ou à esposa do próprio chefe, que as mói e mistura com o barro cerimonial branco (pemba), um símbolo de inocência e de saúde. Esfrega-se o remédio no corpo do doente.

Feito isto, o irmão ou sobrinho do chefe cozinha a cabeça da cabra na mutenji, para ser comida pelo chefe e os seus parentes com papas de mandioca (cindu). Depois de a comunidade ter comido o resto do animal, todos vão dormir.

Na manhã seguinte, organiza-se uma caça para matar um antílope – um kaseshi, um kai ou um khongo – que se traz para a mutenji. Esfrega-se com um dedo uma pequena quantidade de sangue do antílope na cabeça da máscara em forma de oferta. Depois, os membros masculinos da família do chefe, por vezes acompanhados pelos homens mais velhos da aldeia, cozinham e comem o animal. Estas honras prestadas a Cikungu demonstram à importância deste mukishi na hierarquia das máscaras e a sua função como espírito protetor, ou hamba, ligado exclusivamente a família do chefe.

Extraído de Marie-Louise Bastin (1984). African Arts/Arts d’Afrique. XVII; 4:40-50. 92-93,95
Imagens: Mesquitela Lima

Ilabantu