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Hamba: Espírito Ancestral

Pesquisa do Maganza Lekwandanxi, Erick Munhoz, de Lemba, Coordenador de Conteúdo e Midias Sociais do ILABANTU/Nzo Tumbansi

O hamba (pl.  mahamba) é um espírito ancestral ou da natureza a quem se dedica um culto.Os mahamba são representados por árvores, pedaços de termiteiras, estatuetas intencionalmente simplificadas, e por máscaras.  As orações, ofertas e sacrifícios são enviados aos espíritos através destas representações simbólicas, a fim de garantir a sua proteção no dia -a-dia e de os apaziguar se estiverem  pela  negligência   de  um adepto, ou  por  uma  disputa  entre os seus descendentes ou por alguma falha na observação de um ato de homenagem.

Um hamba irado pode causar a doença no transgressor: as mulheres poderão vir a ter problemas ginecológicos, e homens poderão não ter sorte na caça. Um Tshokwe pode também ficar doente se for apanhado por um espírito malévolo. Caminhando pelo mato ou nas margens de um rio, é possível uma pessoa tropeçar acidentalmente  nos  restos  de uma  feitiçaria ou roupas abandonadas após um exorcismo e, visto o espírito banido permanecer ainda nos restos desses materiais, basta esse contacto para que possua a sua nova vítima.

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Os Tshokwe distinguem entre os antigos mahamba (makulwana) dos antepassados e os mahamba parasitas (yipwiya), que se juntaram aos primeiros. Alguns dos yipwiya são de origem estrangeira e são os mais perigosos quando causam doenças, sendo ainda os mais difíceis de apaziguar.

Os mahamba makulwana incluem os ajimu, que representam os antepassados paternos e maternos da linhagem e são simbolizados por duas termiteiras. Um ajimu ofendido causa apenas doenças menores, que o sacerdote do culto, o descendente do antepassado de posição mais elevada, poderá curar simplesmente ao esmagar uma folha entre as palmas das mãos. Outros mahamba makulwana trazem boa sorte aos caçadores, asseguram a fertilidade das mulheres, e ajudam os adivinhos; estes têm os seus próprios cultos e rituais. Apenas os mahamba que causam doenças (yikola) serão aqui considerados.

Quando um Tshokwe fica doente, os seus parentes tratam-no com remédios considerados eficientes.  Se o resultado desejado não for atingido, chama-se um curandeiro com conhecimentos de plantas, seja relativamente aos seus poderes curativos ou ao seu simbolismo ou significado mágico.  Se a doença continuar ou piorar, um parente consulta o adivinho (tahi).  Dos vários instrumentos tradicionais Tshokwe de adivinhação (ngombo), o que hoje tem maior difusão é o ngombo ya cisuka, uma cesta redonda contendo sessenta pequenos objetos simbólicos.

O tahi abana a cesta e o padrão subseqüente revela a causa da doença, normalmente um espírito hamba que o tahi nomeia especificamente.  Doenças causadas por mahamba que não sejam ajimu requerem um processo ritual que poderá ser muito demorado. O tratamento é conduzido por um cimbanda, um homem ou uma mulher que já tenha sido exorcizado do mesmo espírito e que conseqüentemente se tornou membro do seu culto. O ritual tem lugar perante a aldeia  inteira e alguns dos parentes da vítima, que estão presentes especialmente  para assistir à cerimônia.

Auxiliado pelo som de tambores e a multidão a bater palmas, o cimbanda provoca um ataque de possessão na pessoa doente (mwenji), que se encontra deitada num tapete.  Numa atmosfera de frenesi coletivo, o paciente fica febril, começando a tremer e a ter convulsões violentas, falando alto e, por vezes, se o espírito for estrangeiro,  incoerentemente.  O cimbanda esfrega-o com um remédio feito de plantas e barro, particularmente,  o  barro  branco purificador (pemba), simbolizando a pureza.

Apenas ao abandonar o corpo do doente é que o espírito será apaziguado. O exorcismo é conseguido quando o mwenj sentindo o hamba subir progressivamente dos seus pés à cabeça, grita o seu nome num espasmo final libertador; acredita-se que o hamba abandona o corpo pela a boca do paciente.  Ao nomear o espírito, o mwnji confirma o diagnóstico do tahi, e uma cura apropriada pode então ser escolhida.  Freqüentemente uma estatueta (ou um de uma  variedade de objetos), também  referida como hamba,  torna-se o local de descanso do espírito exorcizado.

Após a cerimônia de purificação, durante a qual tudo que tenha estado  em  contacto  com a  pessoa  doente é atirado  para  o  mato ou para  o  rio, o cimbanda  procede  à  iniciação  do  paciente  no  culto.  Uma galinha doméstica ou um antílope

do mato (consoante o tipo de hamba) é sacrificado na aldeia, esfrega-se  um pouco do  seu sangue na estatueta ou símbolo e, de seguida, o mwenji e a sua esposa cozinham e comem o animal na presença do cimbanda. Após esta refeição em comunhão, a estatueta é colocada sob a cama do recém- iniciado ou no seu pequeno santuário (katunda).

Uma vez saudável, ele terá de realizar um ritual mensal a quando do aparecimento da lua nova, senão arrisca-se a ficar novamente doente: em frente à sua casa, besunta o seu corpo com os remédios próprios  e  com  barro  branco, reza ao espírito e honra-o com um sacrifício.  Estes rituais curativos variam de acordo com o espírito atormentador.  Os objetos utilizados para representar, abri- gar e honrar o espírito podem também ser diferentes, variando de árvores à termiteiras, de estatuetas à máscaras.

Extraído de Marie-Louise Bastin (1984). African Arts/Arts d’Afrique. XVII; 4:40-50. 92-93,95

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