Simao-Souindoula
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As Tradições Bantu, por Simão Souindoula

Com efeito, a dezena de grupos etnolinguísticos que habita o território cultiva tradições que privilegiam valores tais como a paz, a reconciliação, a fraternidade, a amizade, a harmonia, a concórdia, a consanguinidade, a abertura a alteridade e a solidariedade.

Esses conceitos apresentam os mesmos radicais do bantu comum, com uma evolução significativa, idêntica, e inseridos em ensinamentos orais semelhantes.

Anunciaremos alguns valores e conceções relacionados com a paz e a reconciliação nacional, e, expressos através de adágios, ditados ou provérbios que contêm, muitas das vezes, regras lógicas. Ensaiaremos explicar os dados do corpus verbal tomado em exemplo.

O cruzamento semântico bantu sobre alguns conceitos que seguirá, far-se-á, a título ilustrativo, indicando o radical proto-bantu na base do “Comparative Bantu”, de Malcolm Guthrie. Isso, nos permitirá apreciar as similitudes das noções.

A PAZ

Dois radicais confirmam que, há 4.000 anos, os Proto-Bantu conheciam bem esta noção. Quietness, – pod – podo Become quiet, – pod – tadad – tuud A evolução dará, entre outras ixações: Kikongo: lutuluku, luvutamu, luvuvamu, luvuviku, lulembeku Kimbundu: kitululuku

Dentre das centenas de adágios usados pelos Bantu, a este respeito, temos os dos Lunda/Luba/ Cokwe que aconselham “Se vocês não querem ter ruídos, não provoquem o elefante”. Quantos aos Luvales, descendentes de Tchinhama, certificaram que “Uma povoação sem autoridade, não pode estar tranquila”.

A RECONCILIAÇÃO

Encontra-se, no sistema de concordâncias das línguas da África Central e Oriental e Austral, esta modalidade no verbo “go up”, no sentido de `aproximar’. – bat – biit – kued – kuid.

Os Bakongo e os Ambundu encherão estes radicais num campo expressando a prática da reconciliação, numa perfeita linha sinonímica com o estado da paz.

E, para indicar a relevância da reconciliação, os Ngoyo comprovaram que “A tartaruga e o manatim respeitam-se/ Ambos coabitam no mar”.

A FRATERNIDADE

Dois radicais foram atestados sobre este género de relacionamento, no ur-bantu, irmão e cunhado. Brother – kudu Brother-in-law – dumu.

Mas, a evolução em vários falares bantu angolanos deu o quadro sinonímico de irmão-amigo, irmão-camarada e irmão-companheiro: Kikongo: mukuetu, mpangi, kamba, Kimbundu: akuetu, nkuame, nkundi, nkundia nzo, nkua-nzolani, nkaledi, mpange, kamba, dikamba.

Este desenvolvimento indica que os Bantu, em Angola, conservaram, naturalmente, as noções de irmandade biológica, consanguínea ou uterina, mas deram, igualmente, a mesma importância aos irmãos assimilados, que em kikongo dá ifuanana, fuanana, fuananesa, lufuananu.

Produziram, também, o conceito de irmão espiritual, co-afilhado, que, em kikongo e kimbundu, cristalizou-se em mpangi a mungua.

A instrução sobre a importância da fraternidade foi, nos Bantu angolanos, consignada em vários ditados, tais como os Nganguelas que fazem lembrar que “Os dentes estão condenados a viver juntos”.

A ALTERIDADE

O falar pré-dialectal tinha, provavelmente, três radicais para constituir o termo estrangeiro stranger – geni – genda – geny Transmitiu, em kikongo e kimbundu, o mesmo vocábulo `nzenza’.

E, a este respeito, os Luba/Lunda/Cokwe a irmam, para sublinhar o seu respeito da alteridade “Um estrangeiro é um enviado de Deus”.

A HARMONIA , A CONCÓRDIA

A forma geral, primitiva, indica o radical: Agreement – dagano.

Uma das fixações semânticas, em kikongo deu, justamente, nguauana.

Em relação à aplicação desses princípios, os Lutchazes estão convencidos que “A honra da panela é a tampa”.

A SOLIDARIEDADE, A UNIÃO

A proto-língua indica o radical ­ daakik ­ , unificate , que permitiu a construção posterior nas duas línguas, segundo o padre e linguista Cannecatim: Em kikongo: iikisa, iikakesaeem kimbundu: sokeka.

Notar-se-á, sobre esta noção, que os Bakongo lixaram, diretamente, num outro quadro sinonímico, esta atitude com `a nkanda’, a família.

Os Ovimbundu opinam, em substância, no mesmo sentido, quando a firmam: “A associação prepara aliança, a amizade origina parentesco”.

Eles comprovaram, igualmente, numa asserção, historicamente, justa, que “Entre os povos, há pontes”. Por outro lado, notaram que ” Se um velho constrói povoação nova, bateram-lhe na cidade”.

Este facto ensina a banir disputas que são, muitas das vezes, fontes de desuniões.

Nos Planaltos Centrais, a firma-se, também, que “A casa de um feiticeiro não se transforma em aldeia”.

Os Ngoyo pensam que a solidariedade deve ser sincera. E, assim, declaram que “Os que desprezam o curandeiro sentem medo quando precisam de ser curados”.

Conscientes da importância da união e solidariedade, os Nyaneka-Humbe aconselham, vivamente, a excluir nas relações humanas, situações de não-diálogo, fontes de mal-entendidos; porque constataram que “É o crocodilo que polui o rio e a distância que destrói a família”.

É, assim, que os Bazombo acordam ao dialogo uma bênção divina. Afirmam: “Reunidos, Deus dá a Sua Ajuda”.

SÍNTESE
Os elementos de análise que acabamos de alinhar confirmam que as populações bantu angolanas marcaram, desde milénios, as suas sociedades com várias estacas filosóficas, permitindo uma vivência social, o mais possível pacífica, a criação de plataformas para a reconciliação, a diversos níveis, a justa paridade das noções de irmão biológico e de irmão social.

Num notável discernimento, elas são sensíveis à alteridade, como fontes de inspiração e enriquecimento civilizacional.

Povos com uma longa experiência histórica, elas apreciam, ao seu justo valor, vários ordenamentos ideológicos, que são fundamentais para o equilíbrio da sociedade, e afirmam a génese destes do próprio Ser Supremo.

CONCLUSÃO

País que ensaiou um decénio relativamente pacífico, Angola, terra de um considerável potencial económico, que tem caminho bem traçado para tornar-se um dragão africano e uma peça essencial do Renascimento do continente, deve explorar, ao máximo, os inestimáveis valores cristalizados nas suas diferentes componentes etnolinguísticas bantu, maioritárias no território, à volta de conceitos de paz e reconciliação nacional.

Uma política de promoção civilizacional, forte, engajando todos os meios de comunicação social, clássicos e recentes, deve ser implementada, podendo desembocar numa verdadeira Revolução Cultural, promovendo uma mudança de sensibilidades, a fim de fortalecer a nação, com as suas próprias ferramentas mentais e de garantir um futuro de paz duradoira e de franco desenvolvimento económico e social no Quadrilátero.

*SIMÃO SOUINDOULA
Historiador, Consultor da União Africana. Perito da UNESCO, presidente internacional do ILABANTU (Luanda, capital da República da Angola)

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